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Sobre acolhimento

No dia 16 de março, acordei tarde. Em meu estendido sono, tinha me esquecido da visita à Vila Paula. E o fato de ter que me apressar para comer, me arrumar e sair de casa em tão pouco tempo após ter acordado não me deixou muito animado.

Quando saí, começou a chover. Chuva inoportuna (para a visita), mas, lá no fundo, talvez eu achasse bom que fôssemos impedidos de fazer nossas atividades, e, assim, eu poderia ir para casa para fazer meus (nada urgentes) afazeres.

Chuva, sim. “Quando chegarmos lá, não deve estar mais chovendo”, me disseram, e eu concordei. Somado aos “afazeres pessoais”, também havia um pouco de receio de estar lá, com as crianças. Por conta do pouco tempo que tive com elas, e com o projeto em si, sentia que nosso vínculo era igualmente curto – e provavelmente apagado pelo longo período de férias longe delas. Mesmo assim, fui.

Quando chegamos lá, apenas algumas nuvens e nada de chuva. Carregando alguns desenhos para as crianças pintarem, e um gibi, cheguei no lugar onde sempre nos encontramos – um pátio aberto, no centro da ocupação. Gustavo, uma das crianças, já estava ali e – para minha surpresa – me cumprimentou com um abraço e logo pediu para que eu lesse o gibi para ele. Pedi-lhe que primeiro fosse chamar as outras crianças e, então, eu leria para ele. Gustavo concordou e pediu para que eu fosse junto. Saí correndo atrás dele, que estava de bicicleta, e de seu irmão, a pé. “Gente, é o Dr. Rubens!”, chamavam, atravessando as íngremes vielas entre os barracos.

Na correria, voltou a chover, e forte. Tínhamos, no entanto, uma alternativa já determinada: fazer as atividades com as crianças na quadra da escola que fica bem perto da ocupação. Quando voltei ao ponto de encontro, as crianças que mesmo assim viriam para a atividade já estavam reunidas. Mas Gustavo estava sem camiseta – então, o acompanhei até a sua casa para que pegasse uma para ele, e outra para seu irmão. Vi novamente, nesse momento, o interesse tão grande dele por coisas tão simples: as palavras e a leitura. “Tio, o que tá escrito aqui?”, ele perguntou, apontando para um extenso texto em inglês escrito na camiseta que acabara de pegar. Prometi a ele que leria assim que fugíssemos da chuva.

Todos prontos, hora de irmos para a escola. Eu, que achei que os desenhos seriam a principal atividade, me enganei. Improvisadamente, os alunos e as crianças fizeram um grande círculo, e começaram a brincar de “corre cotia”, e depois, “morto vivo”. Gustavo, ao meu lado, insistia para que eu lesse sua camiseta e o gibi. Consegui ler sua camiseta (o texto não dizia lá muita coisa), e parte do gibi, nos intervalos entre as brincadeiras. Após elas, enfim, as crianças pararam e começaram a pintar os desenhos.

Enquanto elas desenhavam, em um momento, o professor Rubens parou para conversar comigo. Ele falou sobre como o improviso é uma ferramenta interessante, contando suas experiências pedagógicas em utilizar brincadeiras e dinâmicas pouco convencionais também em sala de aula para criar vínculos entre seus alunos (sejam eles da graduação, ou do mestrado), que facilitam o andamento do curso. Ao que ele disse, complementei: “podemos nos surpreender muito positivamente com o inesperado”.

Talvez essa seja a frase que define meus pensamentos agora. Nenhum receio, insegurança, ou outras coisas na cabeça puderam resistir a um vínculo tão forte criado em um dia tão improvável: um dia de chuva que permitiu que os barcos de papel feitos pelas crianças tivessem poças para descansar; um dia de sábado com atividades “obrigatórias” que se mostraram as melhores possíveis para me sentir descansado e satisfeito; um dia passado com crianças que há tão pouco tempo me conhecem, mas que com tanta vontade me abraçaram, brincaram, correram, me cansaram e me fizeram me sentir muito feliz por estar ali.

A próxima visita terá, para mim, uma expectativa totalmente diferente de qualquer outra que já tive (e especialmente diferente da estranheza e apreensão que senti nessa manhã). Essa nova expectativa pode ser, talvez, parecida com a de meus colegas que já visitam a ocupação há mais tempo. É muito positiva: de certeza de acolhimento.


Guilherme Oliveira, 16 de março de 2019.

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