Páscoa (2019)

    Datas comemorativas são dias curiosos. No geral, as pessoas gostam de enfeitar a casa no Natal, de comprar flores no dia das mães. Como um grupo que brinca diretamente com crianças (de todas as idades, inclusive as de coração), gostamos de usar essas datas para fazer coisas diferentes.

      Na Páscoa de 2019, decidimos nos fantasiar de coelhos. Compramos as tintas para pintar nossos narizes e bochechas, mas esquecemos dos pincéis. Fui buscar alguns em casa e, quando voltei, alguém já tinha encontrado os instrumentos (que haviam se perdido dentro do carro).

      Normalmente, marcamos de nos encontrar numa praça no centro de Barão para que possamos combinar os trabalhos do dia, acertar as caronas e sair todos juntos. Nesse sábado do fim de semana da Páscoa, estávamos todos na praça, sentados em círculo nos banquinhos públicos enquanto esperávamos nossa transformação mágica, possibilitada pelas mãos talentosas dos nossos amigos.

     Sempre tem bastante gente na Vila Paula em datas comemorativas e não foi diferentes nessa Páscoa. Alguns outros grupos ajudam a compor a festa, trazem comidas e presentes. Mais moradores saem das suas casas, aparece gente fantasiada de homem-aranha e gente com cestas de chocolate.

     Como a maioria das nossas atividades envolvem as crianças, havíamos combinado de fazer pintura facial nelas. Arranjamos mesinhas para apoiar nossos instrumentos de trabalho e algumas cadeiras para nos sentarmos. Num instante, várias crianças já eram coelhos e outras faziam fila, dizendo: - Tia, tia! Faz o Coringa!

      Acredite, um pincel e um pote de tinta fazem mágica.

    Datas comemorativas são mais que dias na comunidade, são eventos. São encontros cheios de risadas e tinta no rosto. É quando eu posso ser um coelho e a Samira, uma borboleta com orelhas de coelho. É quando os pais saem de casa e levam as crianças no campinho para comer cachorro-quente e tomar guaraná. É quando a gente pinta as crianças com tinta guache e responde sempre “sim” se elas pedem para pintar nossos braços. Nessa festa de Páscoa, eu lembro que alguém virou o Hulk, mas que a tinta verde não acabou.

     Em dias com tanta gente reunida, há muita coisa acontecendo. Os moradores trazem mesas e cadeiras para comerem mais confortavelmente o lanche servido, enquanto crianças sem camisa brincam de pega-pega com os extensionistas. Nossas máscaras de tinta escorrem pelo rosto por causa do suor, mas nós não temos o que esconder. É ali, com o coração acelerado na tentativa de ser mais rápido que uma criança de 7 anos, que somos verdadeiramente livres.

     Em encontros assim, a gente, às vezes, perde o controle. Os potinhos de tinta somem, os pincéis ganham novos donos. Em pouco tempo, quase todas as crianças já estavam pintadas: algumas eram coelhos, outras tinham tatuagens. Muitas eram obras abstratas ainda esperando a pincelada final. Precisamos ser firmes em alguns momentos para recuperar nossos materiais, além de muito inteligentes para argumentar com garotinhas de 11 anos fazendo biquinho. Prometemos trazer as tintas de novo e pintar todo mundo mais uma vez. Fazemos biquinho também, pedindo mais abraços. Ficamos completamente sujos de cores variadas de tinta.

      Mas tudo bem, porque datas comemorativas são eventos em que todo mundo vira criança de novo.

Jasmine Cavalcante